Olá

Decidi escrever o Blog por achar, como todos que escrevem, que alguém se interessará em ler o que escrevo.

Espero que algo aqui lhe seja últi.

A vida é para ser vivida e o que pudermos aprender para melhorar nossa vivência, melhor.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Ateu ou contra-fé ?

Ateu é uma coisa - ativista contra igreja é outra

Algumas pessoas são visceralmente contra a religião pois entendem que na igreja há enganação e roubo.Afirmo que há mais por de trás desta explicação simplista. 

Para mim, em muitas destas pessoas há uma crença espiritual contida. E a sua razão pessoal, o lado racional do indivíduo, influenciada pelo racionalismo moderno, não permite esta crença pessoal de se expressar. 

Se fosse para ser contra lugares onde há enganação e roubo há muitos outros lugares para se travar lutas deste tipo. 

No futebol - por exemplo - há muito disso (não estou dizendo para pararem o futebol, apenas afirmo que lá também há do mesmo que - supostamente - há nas igrejas). E vejam que os torcedores do futebol vão aos jogos e saem frequentemente para se agredir . 

Alguém já ouviu de uma família, ou um filho drogado, ou um presidiário, ou um casamento, ou uma vida recuperada pelo gol do atacante. Eu já ouvi isso na igreja. 

Acabar com a igreja é acabar com um dos elementos sociais mais poderosos da humanidade e cujo resultado é muito bom. 

A igreja é bênção.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Sensibilidade


A esposa liga para o marido durante a tarde em seu trabalho e lhe diz que está faltando ovos na despensa (que não é dispensa. Dispensa é do verbo dispensar, como ser dispensado (demitido) do serviço). Ao chegar da tarde, o marido entra em casa e a esposa, com a massa do bolo parada na cozinha, pergunta sobre os ovos. Ele responde que não trouxe, aliás, porque ela nem pediu.
Típica diferença homem-mulher, onde a mulher, ao dizer que falta, queria indicar que ele deveria fazer compras – mas não foi explícita. Enquanto isso, o marido típico desligou o telefone e ficou a se perguntar por que a esposa atrapalhou o seu trabalho lhe informando a quanto ia o estoque doméstico. “Informação desnecessária”, ele pensa.
Quem já não passou por isso? Ok, com certeza alguém que está lendo este texto diz “eu, eu nunca passei por coisas assim”, e considera que o texto já começou mal. Acontece que a situação acima, e suas variantes, são muito comuns e o texto fala do típico. Se com você não aconteceu (será mesmo?) melhor. Porém, insistirei no assunto por ser abrangente a muita gente, tanto casais casados como namorados, noivos, mães e filhos e diversas outras relações envolvendo sexos diferentes.
A sensibilidade feminina à necessidade do outro é maior do que a masculina. Sua predisposição natural ao maior cuidado e carinho com o próximo a leva também a ser mais atenciosa. Sua leitura das entrelinhas é mais ativa – não necessariamente mais certeira – e a leva a querer ler com muito mais frequência aquilo que não foi dito. Enquanto o homem volta-se para seu trabalho sem entender o telefonema que a esposa deu e logo se reconcentra no que já estava fazendo, a mulher, na mesma situação, iria se perguntar o porquê daquele contato e, com mais interesse de obter a resposta do que ele, concluiria que deveria levar ovos para casa.
Uma observação: com certeza haverá uma leitora deste texto, de índole mais feminista, que questionará a afirmação de que a sensibilidade feminina é maior que a masculina, explicando, mais uma vez, que se trata de algo imposto às mulheres, que elas não têm as mesmas oportunidades e estímulos que os homens e que se a sociedade se organizasse de forma mais igualitária isso não aconteceria, pois tanto homens quanto mulheres têm  (ou teriam) o mesmo cérebro e, nesta vislumbrada sociedade, teriam a mesma sensibilidade e outras coisas mais em que seríamos iguais. Ora, pois, mas estou tratando da sociedade atual. Nela, independente do motivo, a sensibilidade feminina é mais aguçada que a masculina. 
Nos círculos de casais, principalmente, vejo que esta diferença já é, para muitos, conhecida. Há diversas graças e piadas que retratam o tema. Na principal delas, o caso da mulher que corta ou pinta o cabelo e o marido nem percebe. Situação que toda a mulher casada já passou, ou não? Eu já passei por isso e é, para mim, muito curioso ver que eu não percebi o corte de míseros dois centímetros no tamanho do cabelo de minha esposa, que não dá para perceber e, no primeirodia na igreja, TODAS as mulheres elogiam o corte e vêem os tais dois centímetros a menos. Sinto-me um cego. Ou será que elas tem uma régua virtual nos olhos? É surpreendente e assustador.
Sendo a sensibilidade masculina menor, e sendo isto de conhecimento “público”, porque há uma grande insistência feminina no discurso indireto?O tipo discurso que pressupõe a ação da diminuída sensibilidade masculina? Porque somos alvos freqüentes de
“faltam ovos na despensa” ao invés de “poderia trazer 1 dúzia de ovos (de galinha, não de codorna – é preciso ser claro) quando vier do trabalho ?”
“Amor, hoje não tenho que fazer minha planilha no trabalho” ao invés de “Amor, vou chegar cedo, venha mais cedo para ficarmos juntos”
“A imagem da TV está ruim sempre, né?” ao invés de “querido vamos comprar outra TV porque esta está ruim”
“A cozinha está cheirando mal com o lixo acumulado....”  ao invés de “querido, tire o lixo da cozinha por favor ?”, ou ainda
“Tô com uma vontade de comer lasanha” ao invés de “Querido vamos comer fora hoje naquele restaurante italiano que eu gosto?”
Ouso pensar em duas razões:
Primeira: Uma tendência de todos nós, tanto homens quanto mulheres, de pensar o outro como sendo assim como sou. Logo, se o outro é como eu, e eu entenderia com poucas palavras, ele também é assim. Então, não preciso gastar muita conversa para explicar tudo tão detalhadamente.  Mas, insisto, homens e mulheres são diferentes. E, mulheres leitoras deste texto, pensar que ele pensa como você é arranjar problemas. Ele é diferente e, diga-se de passagem, você casou com ele por que ele é homem, né? Você casaria com você mesma? Portanto, reconhecer as diferenças é vantagem, negá-las, não.
Segunda: Coisa mais chata num relacionamento é ter que declarar-se precisando de carinho, beijo, abraço e atenção. Pedir para ser beijado, ou para ganhar presente e receber, tira um pouco do brilho do que foi dado. Muito melhor é ganhar demonstrações de afeto de forma espontânea. Assim, quando a esposa diz para o marido levar o lixo da cozinha pra fora e ele fez, ele atendeu um pedido dela e ponto final. O porteiro do prédio podia ter feito. Por outro lado, se ela diz que a cozinha cheira mal e ele tira o lixo, indica que ele pensou no bem estar dela. O ato, através da indireta, passa a ter um componente de demonstração de afeto que não acontece quando há um pedido direto.
Mas será que estou dizendo para as mulheres pararem de usar a indireta? Não. Nunca. Até porque nós homens também usamos deste artifício, com menos frequência, mas usamos.
O ponto que queria traçar neste texto, que acredito ser merecedor de reflexão, é que, sendo a sensibilidade diferenciada entre homens e mulheres, e sabendo disso, qualquer relação que envolva pessoas de sexos opostos precisa desenvolver formas de lidar com a diferença.
Aos homens digo que devem prestar mais atenção às indiretas da esposa, amiga, namorada. Às vezes, um presente no final do dia, uma ligação telefônica, um beijo, um elogio pode ser o que ela espera com tantas tentativas.
Às mulheres, peço (não digo, pois com mulheres aprendi que se deve pedir, não mandar.... [será ?] Bom, isto é para outro texto.) que percebam que em assuntos de muita relevância, cujo o não entendimento pode gerar problemas mais sérios do que o bolo que ficou sem ovos na pia da cozinha, deve-se evitar de exigir dos homens sensibilidade aguçada. Um pouco de palavras claras e diretas também não faz mal a ninguém.
Sensibilidade é uma coisa boa que pode produzir espinhos ou frutos agradáveis. Espero lhes ajudar a produzir bons frutos.

domingo, 29 de maio de 2011

Na arquibancada ou no campo

Cheguei a pouco de mais um dia de trabalho. Em meu trabalho com computadores, sou eu que tenho que ir visitar os meus clientes.Vou a muitas casas e conheço muitas pessoas. Diversos tipos de casas e pessoas. São realidades as mais diversas. E uma coisa em particular que gostaria de compartilhar me chamou a atenção nesta semana.


Eu estava com um cliente, consertando seu computador e fiquei sabendo que ele estava noivo. Perguntei-lhe então sobre a expectativa do casamento. O casamento, disse-me ele, seria em breve, e tudo estava sendo organizado pela noiva. O casamento será em outra cidade, onde ela mora, e assim ela está no comando das coisas por lá. Ele, aqui, não tem outra coisa a fazer a não ser esperar o chamado grande dia quando vai entrar de galã na igreja e tomá-la como esposa..

Eles já se conhecem há muito tempo. Namoraram um tempo e depois se afastaram. Cada um tomou rumo próprio, tiveram seus próprios relacionamentos. Recentemente, se reencontraram, conversaram, retomaram o relacionamento e decidiram que se casariam. Veja que a experiência deles já contém um distanciamento, um rompimento da relação. E agora querem se casar.

Costumo sempre afirmar que lamento qualquer casamento que termine. Não importam os motivos. Não me importa se são pessoas de quem eu goste ou não. Não me importa se a causa do fim do casamento foi nitidamente tal ou tal falha de um ou outro, que insistia em fazer o que não era bom. Se o casamento terminou por falta de habilidade, por traição, por má fé ou de forma inesperada. Não importa. Todo casamento que termina – de fato, toda a relação – é um motivo de tristeza. O ponto é que ninguém sobe no altar, pensando que vai se separar. Pode até ser que já tenha pensado : “Se eu me separar....”, ou ainda “Se não der certo, me separo”, ou algo parecido. Mas casar significa, necessariamente, pensar em viver o resto da vida junto ao outro. Separação significa que um alvo – e dons bons – não foi alcançado.

Aquele cliente está decidido agora a se casar com sua noiva. E acredito que serão um ótimo casal pelo que conheço dos dois.

Mas há um casal amigo nosso – meu e do cliente – que está se separando. E ele sabe disso. Depois de um relacionamento de alguns anos - não sei dizer quantos - alguns filhos, muito trabalho juntos, os dois estão se separando. Não sei ao certo dos detalhes, parece que ainda moram juntos. Como fazem no dia-a-dia, eu não sei. Não sei se alguém está dormindo no quarto das crianças ou no sofá da sala ou ainda como dividem as despesas. Mas soube que publicamente já não se consideram um casal e declaram-se como solteiros.

Como disse, meu cliente vai se casar. E, agora, digo, meu cliente vai se casar assim mesmo. Bem perto de nós, tanto geográfica como temporalmente, há um casal que passa a mensagem do casamento que não deu certo. Não funcionou. Tentaram, mas não deu certo.

E então eu pergunto, fazendo uma analogia: Você pegaria um avião logo após um ter caído? Tentaria chegar a uma cidade com seu carro, quando nas estradas os caminhoneiros dizem que não conseguem chegar lá por causa da chuva que fez de tudo um grande lamaçal? Colocaria seu filho na escola que não conseguiu colocar o filho de sua amiga na faculdade? Ele estudou lá, e não passou no vestibular... Você colocaria seu filho nesse mesmo colégio? Será?

Eu responderia sim a todas as perguntas acima. Não há garantias de que o aconteceu com o outro tenha que acontecer comigo. Pode acontecer, mas não tem que acontecer. Eu acredito que o próximo avião deva ter uma manutenção melhor que o anterior, e, quem sabe, um piloto mais bem treinado. Acredito que meu carro, pelo tamanho e manutenção adequada que fiz, possa passar melhor pelo atoleiro, e eu possa chegar à cidade. Acredito que meu filho tem uma boa base escolar e poderá passar no vestibular, mesmo estudando num colégio que não conseguiu passar o filho de minha amiga. Em todos esses casos, o que está em jogo são novas e diferentes variáveis que me fazem pensar que meu caso não precisa ser igual ao anterior. Meu caso tem características próprias e (assim quero acreditar) resultará em algo melhor. Eu lamento o caso anterior, mas tenho a esperança de que eu alcance o meu destino.

Meu cliente irá casar na mesma expectativa. E, na minha opinião, é uma expectativa correta. De fato, o que eu acharia estranho era se ele cancelasse o casamento, porque o outro deu errado. Imagina só: Ele liga para a noiva e diz : “Olha, fulano e fulana, que estavam casados e iam ao nosso casamento, estão se separando. Por causa disso, eu não vou me casar. Perdi a fé nesta instituição. Adeus”. Seria surpreendentemente esquisito. Sem sentido. Muitos tentariam fazê-lo voltar atrás. Até o casal que ora se separa talvez fosse lá conversar com ele. Eles explicariam melhor seus motivos, diriam o que não deu certo com eles, abririam sua privacidade, talvez de uma forma que ninguém ainda tenha ouvido, e mostrariam como a situação dele é diversa da deles. Fariam de tudo. Ninguém aceitaria se ele desistisse.

Ele vai se casar. Ele não mudou de idéia. Ele acredita que o casamento dele não será destinado à separação. Em algum lugar dentro dele – conscientemente ou não – ele diz para si mesmo: “Não! Comigo isso não vai acontecer. Eu vou chegar à última milha”. Algo internamente lhe aponta que há alguma diferença. Ainda que ele mesmo possa não saber o que diferenciará o seu casamento do que está acabando.

Ou, talvez, eu esteja errado. Talvez ele não acredite que vai chegar à última milha. Há ainda outra opção. Talvez, simplesmente, ele não tenha essa fé. Mas ficar com sua noiva é tão bom que ele não se contém. Ele, independentemente de qualquer esperança, vai apostar. Vai jogar as cartas e torcer para que sua jogada dê certo. É uma tentativa. Sem embasamento nenhum, sem nenhuma fé. Apenas a necessidade de ficar junto dela, levando-o a um casamento que não sabe se vai até o fim ou não.

De qualquer forma, ele quer que o casamento dure. A não ser o caso de pessoas mal intencionadas, o que não é o caso dele, não há alguém que se case, pensando em se separar. Todos casamos para ser para sempre. Não é? Ele quer que dure para sempre. E ele quer que o casamento dele seja diferente do daquele outro casal.

Esse desejo, na verdade, está em todos nós. Todos que somos casados, ou que sonhamos que nos casaremos um dia naquela igreja linda toda decorada, queremos ver-nos indo até o fim. É uma esperança universal.

E o que me pergunto a esta altura, é sobre o que temos feito para aumentar nossas chances de vitória ? Ou será que deixamos o sucesso ou o fracasso de nosso casamento ao acaso desta mera esperança de sermos diferentes?

Veja que no dia-a-dia de nossas vidas, não nos deixamos levar pelo acaso. Você deixa sua vida ao acaso? Será? Voltando aos exemplos acima, se, ao invés de um, tivessem caído dez aviões e fossem todos da mesma companhia aérea, não seria o caso de, não custa nada, voar em outra companhia aérea? Se, avançando pela estrada lamacenta, você percebesse, na bifurcação, que o caminho da direta está repleto de carros parados, e, na esquerda, todos parecem ir sem problemas, que caminho seguiria? Se o estudo de seu filho pudesse ser acompanhado de um professor particular de qualidade, pelo mesmo preço de outro de fama duvidosa, qual você contrataria para ajudar seu filho a entrar na faculdade? Eu mudaria de companhia aérea, seguiria pelo caminho da esquerda, e contrataria o professor de qualidade. Eu acredito que comigo vai ser diferente e, a despeito disso, e, justamente para isso, tomo, se possível, todas as medidas que puder, a fim de aumentar a probabilidade de chegar ao resultado desejado.

Mas, na área do casamento, naquele que é um dos mais importantes de nossos relacionamentos, incrivelmente, muitos noivos e noivas, casados e casadas, ficam somente na esperança. Pense bem você mesmo, quando foi a última vez em que você tomou uma decisão, uma atitude, pensando: “Vou fazer isso, porque assim fortaleço meu casamento.” Ou, ainda, “Farei desta forma, para garantir que ele dure mais”. E, antes, desta última vez em que fez isso, quando foi a penúltima? E com que freqüência você tem pensado em coisas que pode fazer, ou deixar de fazer, para aumentar as possibilidades de seu casamento durar?

Meu cliente está para se casar, e não sei ao certo o que ele está fazendo para que seu casamento não tenha o mesmo fim do de nossos amigos em comum. Ele crê na diferença. De fato, são quatro pessoas diferentes e dois relacionamentos diferentes. Mas porque não aumentar as possibilidades de sucesso de forma maior do que ficar somente na torcida de que tudo dará certo?

Às vezes, olhamos o casamento e seu desenrolar como pessoas numa arquibancada do estádio. Já foi a um jogo de futebol? Pois vá ao Maracanã em dia de decisão. É uma senhora experiência de vida. Eu já fui. Com meu pai e minha esposa. Era Flamengo e Vasco. Um jogão.

Ali, na arquibancada, eu ficava reparando nas pessoas torcendo, gritando e xingando. Diziam para o jogador como deveria jogar. Para o juiz, como deveria apitar. Para o técnico, quem deveriam ser substituídos. Falavam sem parar. Em tudo palpitavam. Mas, de fato, quase nenhuma diferença faziam individualmente. Tirando casos isolados, você acredita que o juiz muda de opinião, porque alguém, lá na geral, xingou a mãe dele? Ou que o jogador espera uma sugestão sobre o lado do gol que deve chutar antes de bater o pênalti? Ou que o técnico ouve a torcida individualmente? De fato, é uma falar sem fim, e quase sem implicação prática. Eles não são os atores da cena. Não estão no campo. São 22 jogando, 4 apitando e 2 dirigindo. E só.

Muitos de nós, casais, muitas vezes nos colocamos assim. Ficamos na arquibancada, olhando o desenrolar das coisas. Gritamos. Xingamos. Comemoramos o gol. Reclamamos da injustiça. Palpitamos sobre o que deveria acontecer. E vamos acompanhando o placar, quando acompanhamos...

Há pessoas que, de repente, se dão conta do prejuízo, e, muitas vezes, já é tarde demais, o placar já está bem ruim. Porém, lembremo-nos que, neste jogo, nós somos os jogadores, o juiz e os técnicos. Ainda que muitas vezes tomemos atitudes típicas de quem está de fora do jogo, de fato e de verdade, estamos no meio de campo com a bola na mão. Está sempre na nossa escolha para que lado o casamento vai e como vai. Ele não tem como ir sozinho, a menos que eu deixe.

Eu posso deixar que meu casamento seja levado por diversas coisas. Pelo trabalho estafante, que não me permite ter tempo para conversar com o outro, pelos deveres como pai/mãe que não me deixam ser marido/esposa, pelo aperto financeiro que me deixa sempre muito tenso, por isso e por aquilo. Posso ficar na arquibancada ou posso estar em campo. Posso ver um gol contra ser marcado e o placar ficar desfavorável, ou posso driblar os problemas, correr em direção ao gol, passar a bola para meu cônjuge e comemorar com ele mais um ponto rumo ao campeonato de casamento feliz.

Precisamos, sempre, ter a bola na mão. Aumentar nossas probabilidades. Fazer o que pudermos para que nosso casamento chegue à ultima milha. Deixar a esperança de que somos diferentes ser o único motor deste time pode nos levar na direção que não queremos. Podemos ser os influenciadores do nosso sucesso no casamento. Ou sermos a torcida que vê o time perder o jogo, gritando e xingando, mas nada obtendo com esta atitude de forma prática e com resultados efetivos.

Sugiro ao meu cliente e a todos nós que façamos algo de concreto para converter esperança em possibilidades maiores.

Desculpe se falo de fim de casamento. Talvez você não goste deste tema. Talvez, se for de sua educação, você, agora, bata na madeira três vezes, ou ainda (se for desta linha teológica) esteja amarrando este texto e este escritor. Sai fora coisa ruim! Ou, talvez, faça tudo junto. Mas abordo este tema, porque ele existe. Os casais se separando são muitos e estão, às vezes, à nossa volta. Mais do que pensaríamos. O fim de casamentos é uma realidade em muitas famílias. O formulário de matrícula de um colégio que conheço pergunta ao futuro aluno: Nome do pai, endereço do pai, nome da mãe, endereço da mãe, nome da pessoa com quem reside, e endereço onde reside. Quando eu era pequeno, nos colégios, a pergunta era : Nome do pai, nome da mãe e endereço. Somente isso. Bem diferente, não é?

Posso ignorar meu estado de saúde. Posso nem ligar para minha condição médica. Posso nem sequer me pesar, para ver se estou dentro do peso considerado adequado. Mesmo assim, apesar de toda ignorância proposital, posso ter problemas de saúde. Ignorar não resolve nem evita. “Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas” (Sun Tzu, em A arte da guerra). Num dos últimos casamentos que vi terminar em separação, a declaração da agora ex-esposa foi enfática: “Nosso casamento acabou, e nós nunca tivemos, em anos, uma única briga. E foi exatamente por isso que acabou.” Tivessem eles brigado – no sentido de discutir as questões, tomar decisões, marcar os gols certos – estariam juntos, agora. Hoje, vivem cada um para um lado com suas tristezas e solidões. A família separada, os filhos naquele vai e vem chato de fim de semana com um, outro com o outro.

Sugiro que façamos algo, para aumentar nossas possibilidades de sucesso.

Conheço alguns amigos que se tornaram médicos, e estão se formando. Pessoas que têm o dom de curar os outros. Pessoas que querem ajudar os outros a viver uma vida com mais qualidade. Pessoas que demonstram interesse em fazer o bem ao próximo. Com tudo isso sobre seus ombros desde o início do curso, somente agora podem realmente clinicar. A sociedade entendeu que é preciso mais do que vontade. É preciso conhecimento de fato. Um médico, para ser um médico, passa por mais de seis anos de estudo e prática que não são moleza. Não podem, por mais intencionados que sejam, clinicar, sem que alguma faculdade lhes dê o diploma. Um documento que diz que estão aptos. Para esta e outras profissões não há caminho fácil. Exige-se conhecimento. Boa vontade, desejo e uma corrida de olhos num manual qualquer não funciona. Precisa ler e estudar muito.

Mas para ser marido ou esposa quase não se exige nada. Parece que se acredita que esta é uma arte inata, um conhecimento adquirido, vem pelo DNA. Você quer se casar? Ama seu futuro marido? Então tá! Estão casados, diz o pastor, padre ou escrivão. Quase nada se exige. Acredita-se – os de fora e os noivos – que a capacidade para gerir um casamento está lá, em algum lugar dentro deles. Não precisa nem procurar um botão escrito “aperte aqui, se quiser casar”. Como num conto de fadas, o sonho se realizará por completo, e o príncipe e a princesa serão felizes para sempre, pois este é o destino deles.

Aliás, já reparou como nos contos de fada, a história sempre termina no casamento? Nós nunca acompanhamos sequer o primeiro dia de relacionamento e nova vida dos dois, agora que estão casados. Fica-se com a impressão de que, depois de todas as lutas que travaram para se casar, agora não há mais o que temer. O inimigo já foi vencido. Puro engano. Ainda há muitas batalhas a vencer. Para não ser injusto, há um desenho no qual vemos a continuidade do casamento do “príncipe” e a “princesa”, se é que podemos chamá-los assim. Em Shreck 2, o tema desenvolvido é justamente uma das dificuldades mais comuns de um novo casal: O relacionamento do cônjuge com os pais do outro cônjuge. Família não é fácil. É uma visão mais realista das coisas que acontecem pós dia do casamento. Se não viu o filme, aconselho a vê-lo. Se não viu o Shreck 1, veja-o primeiro.

Voltando à formação médica, sugiro que façamos sempre algo para aumentar nossas possibilidades de sucesso, exatamente como um médico faz para aumentar as de uma operação: Estudando. Digamos que você está com seu filho, precisando retirar o apêndice. Você o deixaria na mão de qualquer pessoa? Ou procuraria alguém com diploma médico? Se precisasse construir uma casa de 2 andares, deixaria a estrutura ser calculada por qualquer um ou teria de ser um engenheiro? Pense bem: sua família vai dormir sobre e debaixo daquelas pesadas vigas... Na justiça, qualquer um pode pleitear suas causa ou será melhor um advogado formado?

Assim, não deixe seu casamento na direção de duas pessoas sem formação – você e ele/a. Pode ser até que dê certo (muitos casamentos dão). Mas aumente suas probabilidades. Leia, estude e vá assistir àquela palestra que vai acontecer, justamente, num sábado à noite. Tempo investido e tempo que dá retorno. Não caia na mesmice dos outros que apenas têm esperança de que vai dar certo. Seja um jogador que atua e que o faz, conhecendo técnicas e jogadas. O casamento é um campo de futebol que não devemos jogar como numa pelada de beira de estrada. Deve ter técnica, conhecimento, habilidades desenvolvidas. Não fique na arquibancada vendo passar. Compre um livro. Estude. Pergunte a outros. Fale de seus problemas. Ouça os dos outros. Tempo investido e tempo que dá retorno.

Espero ter levado você a refletir. Torço pelos nossos casamentos. Que tudo dê certo. Mas que, além de esperanças, vivamos direcionamentos calculados.


Roberto Rocha